terça-feira, 3 de novembro de 2009

Heróis Sem Reconhecimento


Procure pelos seguintes nomes no Google e terá os seguintes números aproximados de citações:

Harald Edelstam - 58300/Oskar Schindler - 387000/Paul Rusebagina - 75600
Augusto Pinochet - 3.610.000/ Adolph Hitler 7.280.000/Joseph Stalin - 14.600.000

O que diferencia os primeiros dos segundos? Bom, a diferença é que enquanto os primeiros se preocuparam em salvar milhares de vidas os segundos foram responsáveis pela morte de milhões de pessoas. Sei que estou sendo simplista e que vários fatores influenciam para que o nome de Pinochet e os demais tenham mais audiência, inclusive o fato de terem sido lideres de nações, o que me estranha é que os que poderiam ser considerados heróis só recebam nota de rodapé na história. Mesmo Schindler que foi personagem de um filme de Spielberg e que participou de uma parte bem mais conhecida e divulgada da história é pouco comentado, talvez para não ofuscar os americanos, vencedores da 2ª Guerra Mundial, “salvadores do mundo”.
Por falar em americanos seria bom falar desse primeiro nome citado, Harald Edelstam era embaixador sueco no Chile quando o exército chileno apoiado pelos yankees, ”grandes defensores da democracia” (outra vez entre aspas), atacaram o Palácio do governo, provocando o suicídio do então presidente, Salvador Allende e colocando Pinochet no poder. Durante a ditadura de Pinochet cerca de 3200 pessoas desapareceram. Edelstam conseguiu salvar mais de 1300 pessoas das mãos sanguinárias do exercito chileno antes de ser expulso do país e ainda denunciou para a imprensa estrangeira toda a barbárie que estava acontecendo, já que a imprensa local apoiava o golpe e escondia que oposicionistas e colaboradores de Allende estavam sendo exterminados em massa no Estádio Nacional do Chile. Harald encarou o exército e deu a cara à tapa, salvando inclusive a embaixada de Cuba de ser atacada pelos golpistas. Um filme sobre ele acaba de ser lançado, intitulado “O Cavaleiro Negro”, mas por não ser uma produção Hollywoodiana com atores conhecidos ninguém espere um grande lançamento por aqui, por enquanto só passou em festivais e como já tem mais de um ano dificilmente será lançado no circuito comercial, talvez seja lançado em DVD mas enquanto isso basta procurar pela internet que tem para download com legendas em português.

O ultimo de nossa lista é Paul Rusebagina, gerente de hotel de luxo em Ruanda quando começou o massacre aos membros da etnia Tutsi pelos Hutus. Havia tempos as tensões estavam à flor da pele no país até que em 1994 os Hutus, etnia majoritária do país resolveram atacar, sobre incentivo de radialistas e de membros do governo pegaram em facões, paus e tudo que pudesse servir como arma e saíram a matar vizinhos, amigos, colegas de trabalho e até parentes que pertenciam a outras etnias. Não foi uma luta entre tribos isoladas como nos faziam acreditar os jornais da época, envolveu religiosos, políticos, profissionais liberais e praticamente toda a população tanto do lado das vitimas quanto dos assassinos. E Paul, que pertencia à etnia majoritária Hutu aproveitando da ausência de seus patrões e de hóspedes no hotel alojou 1200 pessoas da etnia perseguida no hotel e fazendo subornos aos lideres dos massacres e outras artimanhas conseguiu esconde-los e escoltá-los para um campo de refugiados. Só 10 anos depois o mundo parou para prestar atenção ao episódio com o filme “Hotel Ruanda” com Don Cheadle como Paul e Sophie Okonedo como sua esposa, ambos indicados ao Oscar de ator e atriz coadjuvante respectivamente. Além do filme recomendo a leitura dos livros “Gostaríamos de informá-lo que amanha seremos mortos com nossas famílias” de Philip Gourevich, editora companhia de bolso e “Sobrevivi para Contar” de Imaculee Ilibagiza, editora Fontanar. O primeiro é de um jornalista americano que visitou o país dois anos após o evento para entrevistar sobreviventes e o segundo foi escrito por uma sobrevivente que relata como sobreviveu junto com outras sete mulheres escondidas em um banheiro minúsculo na casa de um pastor. É interessante ler os dois para conhecer a história sob pontos de vista diferentes.

Paul, Oskar e Harald são pessoas que como diz a tagline de “Cavaleiro Negro”, fizeram a diferença, poderiam ter lavado as mãos e fingido que nada estava acontecendo. Paul se quisesse poderia ter escondido apenas sua esposa que era Tutsi e sua família no hotel, correria menos riscos e se brincar ainda seria considerado herói. Poderia também ter se unido a turba que clamava pelo sangue inocente e arrancado milhares de cabeças de tutsis. Edelstein não precisaria nem tomar conhecimento das execuções que aconteciam no estádio chileno, como fizeram outros embaixadores poderia continuar fazendo suas recepções e até ter sido amigo do Coronel Pinochet. O famoso Schindler a principio era apenas mais um empresário aproveitando da mão de obra barata dos judeus para enriquecer facilmente, poderia ter continuado assim e ficar indiferente ao destino dos que trabalharam para ele como fizeram vários magnatas da época. Mas parece que o destino se propõe a pregar peças e revelar os verdadeiros salvadores, pessoas de carne e osso que se viram forçados a agir em situação adversa. Seria por um grande sentimento humanitário? Ou será que receberam um chamado divino como Moisés ao ver a sarça ardente no deserto?Talvez queriam entrar para história ou puro e simples remorso. Não importa o motivo a humanidade agradece e sem medo de ser piegas plageia Spielberg no final de “A Lista de Schindler” atestando que quem salva uma vida, salva o mundo inteiro.

Curiosidade: O golpe chileno ocorreu no dia 11 de Setembro de 1973, no filme 11 de setembro em que 11 diretores do mundo inteiro apresentam sua visão sobre os atentados ao World Trade Center o diretor inglês Ken Loach em seu episódio mostra um chileno exilado mandando uma carta para os norte-americanos em que faz um paralelo entre os dois acontecimentos, qualquer dia comento esse filme aqui.

Quando Pinochet morreu o político brasileiro Jarbas Passarinho (um dos artífices do golpe brasileiro) comentou ao G1: “Foi um homem que, num momento azado (oportuno), salvou o Chile de ser um país marxista presidido pelo Allende, que chegou a receber Fidel Castro em Santiago com toda a pompa. Ele deixa o Chile numa situação econômica estável e invejável, cuja recuperação é fruto do seu governo.”

É para rir?

2 comentários:

J. C. David e disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
J. C. David disse...

ou para chorar...

concordo com tudo que você disse, e é aquela coisa, cada caso tem sua peculiaridade.

O caso de Schindler é como você bem disse, ele não poderia ofuscar os "hérois" estadunidenses, se eles conseguiram ofuscar os soviéticos, que foram os grandes "salvadores" da humanidade contra os Nazistas, tanto que, você vê várias homenenagens a soldados dos e.u.a agora você já viu homenagens a soviéticos? Talvez não, ou muito pouco. É claro que não estou fazend apologia ao regime soviético da Época, que comandado por Stalin que era tão facínora quanto Hitler. Mas voltando ao assunto, se eles conseguem ocultar o heroísmo de toda uma pátria porque não fariam isso com um homem.

O de Edelstam também é de fácil análise, ele salvou inimigos dos e.u.a, foi contra alíados deles, entam era mais fácil ele ser tratado como terrorista do que Herói. E não é que esteja sendo anti-estadunidense, mas é fato, que eles comandam a mídia, infelizmente.

E o de Rusesabagina também não é muito difícil de saber, e o próprio, hotel ruanda trás a resposta, ele era negro, e defendia negros AFRICANOS, que como é dito (e é fato), não tratados como lixo, não tem "serventia." E caso haja duvída, só é ver os exemplos do Sudão, Angola, Somália e Ruanda, entre outros. E tenho para mim, que o filme só foi feito, por aquela coisa, a história é boa, vai vender beme tal...Então vamos fazer. E como também diz no filme, as pessoas (não todas claro), assitem (assim como viam os massacres) e quanto termina, voltam ao almoço...Enfim, serve apenas de entreterimento.

Parabéns pelo blog...muito bom, sempre que tiver tempo estarei lendo.

Ps: também gosto bastante do Neno Cavalcante...um exemplo para mim que pretendo seguir a carreira de jornalista.

e só for possível vc passar no meu blog, ficaria grato.

: http://osentidoeoverbo.blogspot.com/